Quem é David Chaum e que papel desempenhou no desenvolvimento da privacidade digital?

Quem é David Chaum?
David Chaum é um cientista da computação e criptógrafo que trabalhou desde cedo em privacidade digital, comunicação anónima e dinheiro eletrónico. Nasceu em 1955 e apresentou ideias que mais tarde se tornaram muito importantes para a criptomoeda e para o mercado das criptomoedas.
Já em fevereiro de 1981, Chaum descreveu formas de comunicar digitalmente sem que outros conseguissem facilmente seguir quem falava com quem. O seu trabalho não se limitava, portanto, a manter em segredo o conteúdo de uma mensagem, mas também a ocultar padrões de comunicação. Introduziu, entre outras coisas, pseudónimos digitais e endereços de resposta não rastreáveis.
Um ano depois, apresentou outra ideia importante: blind signatures. Isto pode ser visto como uma assinatura digital sobre algo que está temporariamente protegido. A parte que assina pode confirmar que é válido, sem ver exatamente o que está a assinar. Chaum utilizou essa ideia para pagamentos digitais não rastreáveis.
Em 1982, tomou também a iniciativa de fundar a International Association for Cryptologic Research (IACR). A partir da segunda metade da década de 1980, trabalhou no Centrum Wiskunde & Informatica, em Amesterdão, onde liderou o departamento de criptografia.
O trabalho de Chaum girava sempre em torno da mesma questão prática: como é que se pode comunicar ou pagar digitalmente sem que uma parte central consiga seguir tudo sobre si? Essa questão continua a ser importante, sobretudo agora que muitos pagamentos e serviços online recolhem dados.
Pontos principais
- David Chaum é um criptógrafo que se ocupou desde cedo da privacidade digital e do dinheiro eletrónico.
- Em 1981, descreveu técnicas para comunicação anónima e pseudónimos digitais.
- Em 1982, introduziu as blind signatures para pagamentos não rastreáveis.
- As blind signatures tornaram possível, no sistema eCash de Chaum, assinar moedas digitais sem ligar diretamente o pagamento posterior ao levantamento anterior.
- Chaum trabalhou, a partir da segunda metade da década de 1980, no Centrum Wiskunde & Informatica, em Amesterdão.
Que papel desempenhou David Chaum na DigiCash?
David Chaum fundou a DigiCash por volta de 1990 para oferecer aos bancos tecnologia para micropagamentos digitais seguros e anónimos. A DigiCash transformou as suas ideias anteriores sobre dinheiro eletrónico num sistema que bancos, clientes e comerciantes podiam realmente utilizar.
A ideia era simples: um banco emitiria moedas digitais, verificá-las-ia e voltaria a trocá-las. Um cliente podia usar essas moedas para pagar online, enquanto um comerciante podia pedir ao banco que as verificasse. O software da DigiCash tornava esses pagamentos possíveis.
Na década de 1990, a DigiCash trabalhou com bancos em pilotos e licenças, entre os quais o Mark Twain Bank. Mais tarde, houve também pilotos ou licenças com o Deutsche Bank, o Bank Austria, o Den norske Bank e entidades no Japão.
Chaum tinha sido anteriormente CEO da DigiCash, mas quando a DigiCash pediu proteção contra falência no início de novembro de 1998, o CEO era Scott Loftesness. Nessa altura, a DigiCash já não estava, portanto, sob a liderança de Chaum.
A DigiCash foi uma empresa pioneira na área do dinheiro digital e dos pagamentos criptográficos, mas o sistema funcionava de forma muito diferente da maioria das criptomoedas que conhece hoje. O banco continuava a ser indispensável, porque emitia o dinheiro e verificava se uma moeda digital não tinha sido já emitida anteriormente.
Como funcionava o eCash e porque foi importante?
O histórico sistema eCash de Chaum utilizava blind signatures para permitir pagamentos digitais sem que o banco pudesse associar um pagamento ao levantamento anterior dessa moeda. Na altura, isso era uma característica de privacidade particularmente forte.
Havia três partes importantes:
- O banco: emitia moedas digitais, verificava-as e evitava o double spending.
- O cliente: levantava moedas digitais e pagava com elas.
- O comerciante: aceitava a moeda e pedia ao banco que a verificasse.
Como funcionava então? Quando um cliente queria levantar moedas digitais, a carteira criava números de série únicos. Esses números de série eram primeiro mascarados com um valor aleatório. Em seguida, o banco colocava a sua assinatura digital sobre essas moedas protegidas e retirava o montante da conta do cliente.
Depois, o cliente removia a proteção. A assinatura do banco continuava válida, mas o banco não sabia qual seria, no fim, o número de série que o cliente iria gastar. Se o cliente pagasse mais tarde, o comerciante podia verificar se tinha recebido uma moeda válida.
Exemplo: Imagine que levanta uma moeda digital de 10 euros. O banco assina essa moeda enquanto o número de série está protegido. Se mais tarde pagar numa loja online, o banco vê, na verificação, que a moeda é mesmo válida. Mas não consegue ligar criptograficamente esse gasto ao seu levantamento anterior.
O comerciante enviava a moeda recebida para o banco. O banco verificava então duas coisas: a assinatura é verdadeira e este número de série ainda não foi usado? Se a moeda fosse válida e ainda não tivesse sido gasta, era registada como gasta e o comerciante recebia o montante.
Essa segunda parte era necessária para combater o double spending: tentar gastar o mesmo dinheiro digital duas vezes. Numa nota física de 10 euros, só pode entregar a nota a uma pessoa. Um ficheiro digital pode, em teoria, ser copiado. Por isso, o banco tinha de verificar, em cada pagamento, se o número de série já tinha sido usado.
o eCash mostrou, assim, que o dinheiro digital podia ser simultaneamente verificável e favorável à privacidade. Ainda assim, não era um sistema descentralizado nem permissionless como o Bitcoin. Era necessário confiar no banco para a emissão, a verificação e a prevenção do double spending. Também era necessária verificação online no momento do gasto.
Há ainda outro ponto a ter em conta: aqui, anónimo significava sobretudo que o levantamento e o pagamento posterior não podiam ser ligados criptograficamente entre si. Isso não significa automaticamente que todos os outros dados, como os dados de um comerciante, ficassem ocultos.
Que influência teve David Chaum no desenvolvimento da criptomoeda?
David Chaum influenciou a criptomoeda sobretudo com ideias criptográficas iniciais sobre privacidade e dinheiro digital. Não inventou o Bitcoin, mas o seu trabalho deixou claro que problemas um sistema de pagamento favorável à privacidade tem de resolver.
As suas blind signatures ofereceram um modelo em que um emissor pode confirmar que o dinheiro digital é válido sem, mais tarde, conseguir ver qual o cliente que gasta essa moeda específica. Além disso, o seu trabalho sobre comunicação anónima trouxe cedo para o centro da discussão temas como pseudónimos, privacidade e não correlacionabilidade.
Chaum mostrou também que o double spending não é apenas um detalhe técnico. Sem uma boa solução para esse problema, o dinheiro digital pode ser copiado e gasto mais do que uma vez. A DigiCash resolveu isso através de um banco central que verificava cada pagamento.
Em 2008, o Bitcoin escolheu uma abordagem fundamentalmente diferente. Em vez de um banco ou de uma casa da moeda que verifica todos os pagamentos, o Bitcoin usa uma rede peer-to-peer. As transações são partilhadas amplamente e o proof-of-work ajuda a rede a chegar a acordo sobre quais as transações válidas.
Em termos simples: o eCash usava uma parte central de confiança para a verificação, enquanto o Bitcoin distribuiu essa tarefa por uma rede de participantes. Por isso, o eCash de Chaum deve ser visto sobretudo como um importante precursor do dinheiro digital criptográfico, e não como o Bitcoin ou como um plano técnico direto para este.
A sua influência está sobretudo na forma como as pessoas passaram a olhar para a privacidade nas criptomoedas. Um pagamento pode ser tecnicamente válido sem que cada passo tenha de estar automaticamente ligado à identidade de alguém. Essa ideia continua a ser relevante para os criadores de sistemas de pagamento e criptográficos orientados para a privacidade.
Em que projetos e organizações David Chaum trabalhou mais tarde?
Depois da DigiCash, David Chaum continuou a trabalhar em privacidade, comunicação anónima e sistemas criptográficos. No Centrum Wiskunde & Informatica, em Amesterdão, organizou por volta de 1986 um Crypto-Course e ajudou a construir um amplo programa de investigação em criptografia.
Em 2016, foi coautor do cMix, um desenho para um mixnet. Um mixnet é um sistema que mistura mensagens através de várias etapas intermédias, tornando mais difícil ligar remetente e destinatário. O cMix transfere uma grande parte dos cálculos criptográficos pesados para uma fase preparatória. Dessa forma, o sistema pode processar mensagens mais rapidamente mais tarde.
Chaum também trabalhou em ideias para dinheiro digital de bancos centrais. Em 2021, participou na redação de um desenho para uma CBDC, ou seja, dinheiro digital de um banco central. Essa proposta não utilizava distributed ledger e concentrava-se em dois objetivos que podem ser difíceis de conciliar: privacidade para os utilizadores e regras que um sistema monetário central tem de cumprir.
Em 2021, Chaum estava ligado à xx Network. O mainnet da xx Network foi lançado em novembro de 2021. A rede centra-se na privacidade e na comunicação anónima.
Além disso, participou na redação do VoteXX, um sistema de votação descentralizado. O desenho procura combinar sigilo do voto, uma contagem fiável e resistência a coerção forte. Pense, por exemplo, em coerção como alguém que quer controlar se votou num determinado candidato. O VoteXX foi concebido e implementado como sistema de votação, mas isso não significa automaticamente que já tenha sido utilizado numa eleição pública oficial.
A linha condutora continua clara: Chaum trabalha em sistemas em que as pessoas podem comunicar, votar ou pagar digitalmente sem abdicar de privacidade em excesso.
Conclusão
David Chaum desempenhou um papel precoce e influente no desenvolvimento da privacidade digital e do dinheiro eletrónico criptográfico. Com as blind signatures, mostrou que um banco pode verificar dinheiro digital sem ligar diretamente um pagamento posterior ao levantamento de um cliente.
A DigiCash e o eCash ainda dependiam de bancos e, por isso, não eram descentralizados como o Bitcoin. Ainda assim, deixaram claro um ponto importante: privacidade, validade e proteção contra o double spending podem coexistir num único sistema de pagamento digital.
Para a criptomoeda, o legado mais importante de Chaum não é, portanto, uma moeda específica, mas sim uma série de ideias. Sobretudo a ideia de que os pagamentos digitais não têm de ser automaticamente totalmente rastreáveis continua a ser relevante.